El Niño ganha força enquanto o Atlântico aquece: o que esperar nos próximos dois meses
O El Niño de 2026 está acelerando. Os dados semanais do Niño 3.4 saltaram de +0.90°C há quatro semanas para +1.50°C na última semana de junho, um aumento abrupto que o índice ONI oficial — atrasado por design — ainda não reflete completamente. Simultaneamente, o SOI caiu para -1.50, sinalizando pressão atmosférica cada vez mais favorável a condições típicas de El Niño. A NASA confirmou que "observações de satélite da altura da superfície do mar indicam que o evento de 2026 continuou se fortalecendo no início de junho". O fenômeno ainda é tecnicamente neutro nos critérios oficiais, mas a tendência é inequívoca: estamos na transição acelerada para um El Niño moderado a forte.
O que torna este momento particularmente delicado é o cenário convergente no Atlântico Norte. A Oscilação Multidecadal do Atlântico (AMO) permanece em fase quente (+0.1920), enquanto a QBO está em modo lesteiro (-23.1 m/s) — uma combinação estatisticamente associada a temporadas de furacões mais ativas. O NAO negativo (-0.64) amplifica esse efeito, favorecendo bloqueios atmosféricos que podem prender sistemas de alta pressão e intensificar eventos extremos. A mudança climática, como apontam pesquisadores citados pelo The Guardian, está também reorganizando padrões de "whiplash" — alternâncias bruscas entre seca e umidade — que desafiam as defesas tradicionais contra enchentes e secas.
O contexto global agrava o quadro. O CO₂ atmosférico atingiu 431.57 ppm, continuando sua trajetória inexorável de aumento. O oceano, conforme escreveu Karina Von Schuckmann no The Guardian, "está com febre". Quase todos os indicadores climáticos piscam em vermelho, enquanto os gelos polares continuam em trajetória descendente de longo prazo. A série recente de grandes terremotos no Pacífico Ocidental — inclusive um M7.8 nas Filipinas em 7 de junho — não é diretamente ligada ao ENSO, mas ocorre num contexto de instabilidade geofísica que comumente acompanha transições de fase climática.
Nos próximos 30 a 60 dias, espera-se que o El Niño continue se consolidando, com o ONI oficial provavelmente cruzando o limiar de +0.5°C em julho ou agosto. O PDO em fase fria extrema (-9.90) criará um cenário atípico: El Niño é normalmente atenuado por PDO frio, o que pode resultar em um evento menos intenso do que os sinais semanais sugerem. No Atlântico, a convergência de AMO quente + QBO lesteira + NAO negativa aponta para pressões sazonais elevadas de furacões nos próximos três meses, exigindo atenção reforçada às previsões de junho a setembro. A MJO, atualmente inativa (amplitude 0.66), pode ativar e modular esses padrões de forma significativa. O monitoramento de alta frequência será essencial.