ENSO em transição: sinais de aquecimento do Pacífico em meio a paradoxos climáticos globais
O estado do ENSO apresenta neste momento uma dinâmica de transição que merece atenção. O Índice Oceânico Niño (ONI), nossa régua oficial para classificação de El Niño e La Niña, permanece em 0.48, tecnicamente em fase neutra. Porém, os dados semanais mais recentes do Niño 3.4 revelam aquecimento mais acelerado: +1.50 °C na semana de 10 de junho, em escalada desde +0.90 °C há quatro semanas. Essa divergência é importante porque o ONI, sendo uma média móvel de três meses, funciona com defasagem. O sinal semanal sugere que um El Niño fraco está a caminho, ainda que o índice oficial não o confirme formalmente. Paralelamente, o Índice de Oscilação Sul (SOI) está em -1.50, alinhado a condições El Niño, reforçando a coerência do aquecimento tropical.
Tudo isso ocorre, porém, sob influências oceânicas e atmosféricas bastante restritivas. O Pacífico Decadal (PDO) encontra-se em -2.71, profundamente em fase fria — muito abaixo do limiar de alerta de -0.5. Historicamente, a PDO fria amplifica eventos La Niña e atenua El Niño. Um El Niño emergente sob PDO fria tende a ser mais fraco e com impactos regionais diferentes dos padrões que conhecemos. No Atlântico, a situação é quente: a Oscilação Multidecadal do Atlântico (AMO) está em fase positiva (0.1920), enquanto a NAO (Oscilação do Atlântico Norte) permanece negativa em -0.64. Essa combinação historicamente favorece maior atividade de furacões no Atlântico e padrões de bloqueio atmosférico no hemisfério norte — um contexto que já se manifesta com o Tropical Storm Arthur iniciando a temporada 2026, e testes de calor extremo foram registrados em jogos da Copa do Mundo em Miami e Monterrey, conforme documentado pela NASA.
A estratosfera também entra na equação. A Oscilação Quasi-Bienal (QBO) está em fase lesteira (-23.1 m/s), um sinal frequentemente associado a maior atividade ciclônica tropical no Atlântico. Esses ventos estratosféricos de leste, combinados com AMO quente, formam um cenário robusto para tempestades atlânticas intensas nos próximos meses.
O contexto de permafrost em descongelamento continua a representar uma questão de longo prazo crítica. Uma descoberta recente reportada pela ScienceDaily mostra que o descongelamento de permafrost pode disparar aumento no intemperismo de rochas, um processo natural que absorve CO₂ da atmosfera — em certas regiões, esse sequestro foi forte o suficiente para compensar totalmente as emissões do próprio permafrost. É um exemplo de feedback geológico que ainda não está plenamente integrado aos modelos de sensibilidade climática global, e reforça a complexidade do sistema terrestre.
Para os próximos 30 a 60 dias, espera-se consolidação gradual de El Niño fraco. O aquecimento semanal do Niño 3.4 deve continuar em tendência de subida, e é provável que o ONI cruze o limiar de 0.5 em julho ou agosto, formalizando El Niño. Paralelamente, a atividade de furacões no Atlântico permanecerá acima da média climatológica, impulsionada pela AMO quente e QBO lesteira — um padrão de risco duplo para o Atlântico Norte e Golfo do México. O Pacífico, por seu turno, enfrentará um El Niño nascente mas temperado pela PDO fria, sugerindo impactos regionais menos dramáticos que em episódios históricos com PDO positiva.