ENSO em aquecimento enquanto Europa sufoca: o que esperar nos próximos meses
O Oceano Pacífico tropical está começando a acordar. Enquanto o Índice Oceânico Niño (ONI) ainda marca 0.48, mantendo oficialmente a classificação neutra, os dados semanais contam uma história diferente: a anomalia Niño 3.4 saltou de +0.90 °C há quatro semanas para +1.70 °C na semana de 17 de junho. Essa aceleração sugere que sinais de aquecimento estão se desenvolvendo mais rapidamente do que o índice oficial consegue capturar, dado que o ONI é uma média móvel de três meses e pode estar até dois meses atrasado. O Índice de Oscilação Sul (SOI) em -1.50 reforça esse quadro, apontando para condições cada vez mais compatíveis com um El Niño em formação.
Contudo, há um freio atmosférico importante em ação. A Oscilação Decadal do Pacífico (PDO) está em -2.71, bem abaixo do limiar de instabilidade. Essa fase fria decadal é conhecida por atenuar a força de eventos El Niño e amplificar La Niñas — um efeito contraditório que pode manter a eventual chegada do El Niño em patamares moderados. Ao mesmo tempo, o Atlântico Norte apresenta configuração complexa: a Oscilação Multidecadal do Atlântico (AMO) está em fase quente (0.1920), favorecendo maior atividade de furacões e secas no Sahel, enquanto a NAO negativa (-0.64) predispõe a Europa a bloqueios atmosféricos persistentes.
Essas oscilações oceânicas de larga escala criaram o cenário perfeito para a onda de calor extrema que atualmente castiga a Europa. O Reino Unido enfrenta avisos raros em nível vermelho, com temperaturas potencialmente atingindo 38-40 °C em partes da Inglaterra e País de Gales, quebrando recordes de junho estabelecidos em 1976 (segundo The Guardian). A França registrou 19 mortes relacionadas ao calor, e o país prepara reuniões emergenciais de crise. Esses eventos não são isolados: simultaneamente, chuvas torrenciais continuam a assolar o Quênia, com relatos do Observatório Terrestre da NASA sobre o transbordamento do Lago Naivasha, que alimenta o comércio global de flores.
A atividade sísmica também vem aumentando na região do Pacífico tropical. Registraram-se cinco terremotos de magnitude 6.9 ou superior nos últimos 90 dias — incluindo um M7.8 perto das Filipinas em 7 de junho — em áreas historicamente associadas a variabilidade oceânica e atmosférica. Embora a causalidade entre sismos e ENSO seja complexa, esses eventos sublinham a volatilidade atual nos trópicos do Pacífico.
Olhando para os próximos 30-60 dias, o cenário aponta para uma progressão gradual em direção a condições de El Niño fraco a moderado. A anomalia Niño 3.4 provavelmente ultrapassará +1.0 °C consistentemente, cumprindo os critérios técnicos para transição oficial no NOAA. Porém, a combinação da PDO fria, QBO em fase lesteira (favorecendo mais furacões no Atlântico) e a persistência da NAO negativa significa que eventos climáticos extremos podem continuar fragmentados geograficamente: mais calor extremo e bloqueios na Europa Ocidental, chuvas intensas nos trópicos e maior risco de ciclones tropicais no Atlântico. Os próximos boletins de junho e julho serão críticos para confirmar se o El Niño se consolida ou se regride.