ENSO em transição: sinais de aquecimento batem contra freio do Pacífico frio
O Oceano Pacífico Equatorial exibe sinais contraditórios neste início de julho de 2026. Os dados semanais mais recentes (24 de junho) indicam anomalia de temperatura na região Niño 3.4 de +1.80°C, acima dos +1.00°C registrados quatro semanas antes — um salto de 0.80°C em apenas 28 dias. Este movimento ascendente é significativo e sugere aceleração rumo aos critérios de El Niño. Paralelamente, o Índice de Oscilação do Sul (SOI) marca -1.50, confirmando pressão barométrica típica de aquecimento equatorial.
Ainda assim, o Oceanic Niño Index (ONI) permanece em 0.48, mantendo oficialmente o estado ENSO em fase neutra. Esta defasagem reflete a natureza da própria métrica do ONI — uma média móvel de três meses que captura sinais com até dois meses de atraso. Historicamente, quando dados semanais ultrapassam +1.5°C enquanto o ONI ainda situa-se abaixo de +0.5°C, encontramo-nos num ponto de inflexão: a próxima média trimestral deve se elevar substancialmente, fazendo transitar formalmente para El Niño dentro de seis a oito semanas. A tendência registrada é SUBINDO.
O que complica o cenário é o domínio persistente do Padrão de Oscilação Decadal do Pacífico (PDO) em fase fria, com índice de -2.71 — um sinal crítico. Historicamente, a fase fria do PDO atenua a intensidade de episódios El Niño e favorece o desenvolvimento de episódios La Niña. Se o PDO permanecer neste patamar nos próximos meses, o aquecimento equatorial que vemos agora pode não evoluir para um El Niño plenamente maduro, ou sua duração poderá ser menor. Adicione-se a isso a Oscilação Multidecadal do Atlântico (AMO) em fase quente (+0.1920) e a QBO em modo lesteira (-23.1 m/s), fatores que amplificam atividade ciclônica no Atlântico — e temos um padrão global complexo e não-síncrono.
Este cenário reflete-se nas manchetes climáticas globais: recordes de temperatura em Sidney (16.1°C em junho, o maior desde 1859, segundo The Guardian) e nas Américas, onda de calor coincidindo com a celebração do 250º aniversário dos EUA (segundo Carbon Brief e The Guardian). O aquecimento global de fundo — CO₂ atmosférico em 430.30 ppm — continua a elevar pisos térmicos, amplificando extremos sazonais. Simultaneamente, o derretimento de gelos polares (Ártico em 8.836 milhões km², próximo da série histórica) segue alterando padrões de circulação oceânica e atmosférica.
Os terremotos significativos dos últimos 90 dias (incluindo M7.8 nas Filipinas e M7.5 na Venezuela) não alteram projeções ENSO diretamente, mas servem como lembrete de que o sistema climático opera sobre uma base tectônica ativa. Pequenas variações em erupções vulcânicas ou desgaseificação podem influenciar anomalias oceânicas locais.
Para os próximos 30 a 60 dias, espera-se que o ONI continue sua ascensão e ultrapasse formalmente o limiar de +0.5°C, selando tecnicamente a transição para El Niño. Porém, a intensidade permanecerá moderada devido ao PDO frio. Observadores devem acompanhar com atenção qualquer mudança no padrão do PDO (índices acima de -0.5) e a evolução da MJO (atualmente em fase 8 com amplitude 1.58), que pode acelerar ou frear dinâmicas convectivas no Pacífico. Prognósticos de chuva para o Sahel, seca na América do Sul e padrões de furacões no Atlântico dependem criticamente desses ajustes.