ENSO em transição: como o Pacífico neutro caminha para El Niño em julho
O Oceano Pacífico tropical envia mensagens contraditórias nesta segunda semana de julho. O Índice ONI oficial permanece em 0.48, mantendo a classificação técnica de fase neutra, mas o dado semanal mais recente revela movimento acelerado: a anomalia do Niño 3.4 atingiu +1.80°C em 1º de julho, subindo de +1.30°C há apenas quatro semanas. A tendência é inequivocamente para cima, sugerindo que os critérios formais de El Niño — baseados em médias móveis de três meses — reconhecerão essa transição em poucos meses.
Este aquecimento tropical ocorre num contexto de sinais mistos nos demais índices climáticos. O Índice de Oscilação Sul (SOI) está em -1.50, claramente no território de El Niño. Porém, o Pacífico Decadal (PDO) permanece numa fase fria robusta com -2.71, um fator que historicamente atenua os impactos globais de episódios El Niño e pode amplificar a manifestação de padrões de La Niña quando o ciclo se reverter. A fase lesteira da Oscilação Quasi-Bienal (QBO em -23.1 m/s) favorecerá maior atividade de furacões no Atlântico nos próximos meses.
No Atlântico Norte, a Oscilação Multidecadal (AMO) aquece a 0.1920, enquanto a NAO mergulha em fase negativa (-0.64), combinação que tende a consolidar bloqueios atmosféricos persistentes e contribui para eventos extremos como as sucessivas ondas de calor que assolam a Europa. Junho foi o mês mais quente já registrado no continente, com estimativas de mais de 20 mil mortes relacionadas ao calor, e a situação se repete em julho. Conforme relatado pelo Guardian, escolas britânicas enfrentam salas de aula acima dos 40°C, com relatos de desmaios e insolação entre alunos.
Os tremores sísmicos recentes — particularmente os terremotos de magnitude 7.2 e 7.5 na Venezuela (24 de junho) e o M7.8 nas Filipinas (7 de junho) — ocorrem numa região geográfica que coincide com fronteiras tectônicas vinculadas ao ciclo ENSO. Embora a relação entre atividade sísmica e variabilidade climática seja indireta, esses eventos podem influenciar padrões locais de subsidência e circulação oceânica. Dados do NISAR mostram deslocamentos significativos do solo na região de La Guaira.
A concentração de CO₂ atmosférico continua sua trajetória ascendente, registrada em 427.91 ppm em Mauna Loa, enquanto o gelo ártico soma 8.428 milhões km² — valores que refletem a aceleração do aquecimento de fundo associado às mudanças climáticas antropogênicas. A MJO (Oscilação de Madden-Julian), um motor importante da variabilidade intrassazonal, permanece ativa na fase 8 com amplitude 1.74, potencialmente modulando convecção tropical e afetando padrões de precipitação globais.
Para os próximos 30 a 60 dias, espera-se que o ONI oficial transite definitivamente para a faixa de El Niño fraco (entre 0.5 e 0.9°C), consolidando a mudança observada nos dados semanais. A presença simultânea do PDO frio suavizará alguns dos impactos típicos de El Niño sobre regiões como a América do Sul, mas não impedirá o aumento de chuvas sobre partes do Pacífico Central e norte da América do Sul. Na Europa, o padrão de bloqueios negativos da NAO provavelmente persistirá, mantendo o risco de episódios extremos de calor. A AMO quente continuará favorecendo furacões no Atlântico, requerendo atenção especial às previsões sazonais para a temporada de furacões 2026.