El Niño segue forte enquanto PDO frio amplifica riscos climáticos globais
O El Niño que domina o Pacífico Equatorial continua robusto, com o Índice Oceânico Niño (ONI) em 1.40 e a anomalia semanal da região Niño 3.4 alcançando +2.70°C — valores que apontam para um evento de moderada a forte intensidade. A convergência simultânea do ONI positivo e do Índice de Oscilação Sul (SOI) em -4.00 (fortemente negativo) é o critério mais confiável de confirmação do fenômeno. Além disso, a tendência recente mostra o sinal semanal subindo, de +2.50°C há quatro semanas para +2.70°C agora, sugerindo que o aquecimento equatorial ainda pode intensificar-se ligeiramente nas próximas semanas.
O que torna o cenário atual particularmente complexo, porém, é a presença simultânea de uma Oscilação Decadal do Pacífico (PDO) em fase fria robusta, com índice em -2.71. Historicamente, quando a PDO está em fase fria, ela atenua a força dos eventos El Niño e amplifica a dos eventos La Niña. Este contraponto oceânico de longo prazo pode significar que, apesar de estarmos tecnicamente em El Niño, seus impactos globais sejam menos extremos do que seriam se a PDO estivesse em fase quente. Para fins de planejamento climático regional, esta nuance é crucial: certas regiões acostumadas com efeitos severos de El Niño podem experimentar anomalias moderadas.
No Atlântico, o cenário é mais preocupante. A Oscilação Multidecadal do Atlântico (AMO) em fase quente (+0.1920) combinada com a QBO em fase lesteira (-23.1 m/s) cria condições favoráveis a maior atividade de furacões. Esta configuração já se reflete em notícias recentes: segundo o Carbon Brief, as emissões de incêndios florestais da Indonésia em 2026 estão em trajetória para igualar recordes históricos, enquanto no Reino Unido, segundo o The Guardian, o NHS reportou o verão mais ocupado de sua história, com mais de mil operações canceladas devido às ondas de calor recorde. O cenário de aquecimento oceânico combinado com instabilidade atmosférica estrutura um ambiente propício para eventos extremos.
Os terremotos sísmicos registrados nos últimos 90 dias — incluindo um M7.7 na Indonésia em agosto — também inserem pressão tectônica adicional em regiões já vulneráveis a variabilidade climática. A Indonésia, particularmente, enfrenta tanto a volatilidade ENSO quanto a atividade vulcânica e sísmica elevada, ampliando riscos a populações locais.
A concentração de CO₂ atmosférico em 426.25 ppm continua sua trajetória crescente, pano de fundo permanente sobre o qual estes ciclos oceânicos operam. Como ressaltado recentemente no Climate Brief, a integridade climática exige honestidade sobre a lacuna entre emissões reduzidas no papel e emissões realmente reduzidas na atmosfera.
Para os próximos 30 a 60 dias, espera-se que o El Niño mantenha sua intensidade ou sofra declínio leve, dado que já estamos avançando para o hemisfério de transição sazonal (primavera boreal). O MJO em amplitude baixa (0.84) sugere que não haverá amplificação significativa via modulação de Madden-Julian nos próximos 15 dias. A PDO fria permanecerá como um fator limitante de magnitude, suavizando — mas não eliminando — os impactos globais do El Niño. Monitorar o SOI e a Niño 3.4 semanal será essencial para detectar sinais de reversão precoce.