El Niño ainda intenso: como o evento aquece o planeta enquanto o Atlântico ferve
El Niño segue em intensificação neste outubro de 2026. O Índice de Oscilação Sul (ONI) permanece em 1.80, consolidando o evento em nível moderado a forte. Mais significativo: os dados semanais da região Niño 3.4 mostram aceleração recente, saltando de +2.60 °C há quatro semanas para +3.10 °C na medição de 23 de setembro. Essa convergência entre o sinal semanal aquecido e o índice oficial confirmam que o aquecimento está se consolidando — mesmo que o ONI, sendo uma média móvel de três meses, capture apenas parte da dinâmica atual.
O reforço do El Niño manifesta-se agora em recordes climáticos tangíveis em múltiplos continentes. A Austrália acaba de registrar seu segundo setembro mais quente da história, com a região alpina de Kosciuszko atingindo profundidade zero de neve (The Guardian, 05/10). Na Califórnia, ondas de calor de final de estação mantêm temperaturas próximas a 38°C em Los Angeles (The Guardian, 03/10). Na Ásia, Bangkok enfrenta inundações devastadoras com 40 mortos e a cidade inteira em situação crítica, cenário que especialistas afirmam tenderá a piorar com El Niño (The Guardian, 03/10). Estes eventos não são coincidência: El Niño redistribui calor oceânico globalmente, intensificando extremos em regiões vulneráveis.
Um fator agravante é a convergência de modos climáticos adversos. A Oscilação Multidecadal do Atlântico (AMO) está em fase quente (+0.1920), combinada com a QBO em modo lesteiro (−23.1 m/s), condições que favorecem maior atividade furacânica no Atlântico Norte. Paralelamente, a PDO em fase fria forte (−2.71) normalmente atenua El Niño, mas a intensidade atual do evento já superou essa supressão. O resultado é um sistema climático desalinhado, com El Niño forte sobre o Pacífico e uma Atlântica anormalmente ativa — uma combinação rara e perturbadora.
A pressão sobre a segurança alimentar amplifica-se neste contexto. Secas relacionadas a El Niño e AMO quente já afetam o Sahel e regiões agrícolas globais. O governo britânico, reconhecidamente, carece de planejamento robusto para crises alimentares (The Guardian, 04/10), enquanto o Reino Unido enfrenta surtos de bluetongue em rebanhos — doença originária da África que agora avança até a Escócia devido ao aquecimento climático (The Guardian, 03/10). Em paralelo, a conferência climática COP31 em Ankara abriga uma contradição perturbadora: os anfitriões apostam em carvão enquanto o anfitrião reconhecidamente vaza metano massivo de aterros sanitários (The Guardian, 05/10).
Para os próximos 30 a 60 dias, espera-se que o El Niño mantenha força residual, com ONI oscilando entre 1.6 e 1.9. O sinal semanal, porém, pode arrefecer levemente conforme a estratificação térmica do Pacífico equatorial se estabiliza. A MJO em fase 3 com amplitude moderada (1.77) permanece favorável a padrões La Niña, sugerindo que uma eventual transição poderia acelerar-se em dezembro. Até lá, prepare-se para ondas de calor persistentes nas médias latitudes do Hemisfério Sul, atividade furacânica elevada no Atlântico e perturbações pluviométricas agudas em zonas tropicais.